Você está completa e irrevogavelmente sozinha. O seu melhor amigo não vai te entender, a sua mãe não vai te entender, o seu namorado não vai te entender, a sua chefe não vai te entender. Só você vai saber o que se passa dentro de você. Você pode tentar comunicar isso aos outros de alguma forma. Você pode escrever. Você pode gravar áudios longos. Mas é possível que, mesmo com muita boa vontade, eles não entendam. Ou pior: pode ser que, com muita má vontade, eles nem sequer tentem entender. Vão achar que é corpo mole. Preguiça. Incapacidade. Desleixo. Irresponsabilidade…


Escritos em 2020

Publicava meus poemas nesta página desde 2017. Mas lá por 2019 a depressão me jogou no chão e fiquei um bom tempo sem escrever nada. A musa voltou a me visitar em 2020 e meio que veio pra ficar. Tenho publicados poemas em outro Medium, sob um pseudônimo, pelo simples fato de a maioria ser poesia erótica, e eu não querer aliar meu nome — o nome que uso pra assinar matérias jornalísticas — a poemas eróticos. Bobagem? Talvez. Mas sei lá. Abaixo estão alguns poemas que selecionei da safra de 2020. Sinto que minha poesia mudou de 2017 pra…


Um conto erótico juvenil

Dividam-se em grupos de três e produzam uma dissertação sobre as guerras napoleônicas do ponto de vista russo na literatura. Oito a dez páginas. Normas ABNT. Entrega até o dia 20 deste mês. Não vou tolerar atrasos.

A professora de literatura leste-europeia só se expressava em tom ameaçador. Era uma das docentes mais temidas do curso de letras e, além de distribuir notas abaixo da média, tinha uma aparência esquálida, um rosto angular e uma voz de tia fumante, características que só a deixavam ainda mais aterrorizante.

— Ei, vamo fazer junto esse trabalho? — Pedro cutucou o ombro da…


Bad trip, síndrome da impostora e daddy issues

“Eu não mereço. Eu não mereço isso.” Afirmava com uma pitada de melancolia enquanto C, esposa de R, dizia que o marido morria de orgulho de mim. C é uma proeminente editora de livros e escritora. R é professor universitário, editor e escritor. Eu estava na casa de L, badalada chefe de cozinha, em um bairro nobre de São Paulo. O que eu, uma garota negra do subúrbio do Rio fazia lá? Bom, nem eu sabia. Era a deslocada estagiária de uma revista cujo público-alvo é a classe média alta brasileira. Fui à festa com meus colegas de trabalho após…


Eu te amo, Carol

Ilustração de Gabienna

Semana passada, fiz minha primeira consulta da vida com uma psicóloga gestaltiana. Gostei muito da experiência. Contei pra ela que tenho feito da saúde mental e física minha prioridade número 1. Disse que estou na natação e na yoga e que amo fazer essas atividades. Que quero comprar uma bicicleta e patins pra rodar pelo bairro. Que tenho buscado me alimentar com mais consciência. Que tenho cultivado minhas amizades e minhas relações familiares. Que pela primeira vez na vida estou me dando a importância que mereço. Quando terminei o discurso de autocuidado, ela estava sorrindo e disse: “Sabe a sensação…


‘DOCE 22' é um dos melhores álbuns pop brasileiros dos últimos anos

Luísa Sonza segura pêssego, mas neste texto trataremos de limões [Felipe Grafias/Divulgação]

Todo mundo odeia a Luísa Sonza. Partindo desse mote, o jornalista cultural e youtuber Anderson Vieira tentou entender o porquê de tanto hate em cima da cantora em um vídeo publicado no já longínquo ano de 2018. Desde então, muito mais coisas aconteceram na vida e na carreira da artista — coisas as quais ela não poderia prever. Se naquela época a gaúcha já era odiada, o pico da perseguição chegou no ano de 2020.

A pandemia foi difícil mentalmente para todo mundo. Mas foi especialmente desafiadora para Luísa, o youtuber Whindersson Nunes e o cantor Vitão. O casamento dos…


Uma reflexão sobre padrões e auto-ódio

Esses dias fui buscar a 2ª (ou 5ª) via da identidade, quase dois anos após ela ter sido furtada junto com minha mochila (e celular. E chinelo) numa fatídica choppada da faculdade. Saí na foto com um semblante meio tristonho, não gostei. Eu tava feliz naquele dia. Aí lembrei da minha primeira identidade, feita lá em 2010, aos 14 anos. No auge da minha teenage angst, estou com uma cara sutilmente invocada, como quem diz: “I dare you”. Não havia um dia em que não estivesse de lápis de olhos — demorou muito pra que eu me reconhecesse sem ele.


Você exala conforto
Roupa com cheiro de amaciante
Apartamento de dois quartos
Prédio com elevador e porteiro

Nunca precisou tomar banho de balde
Ônibus, só aos 18
Seu jeito soft me atrai
Talvez porque eu nunca pude sê-lo

Poeminha encontrado nas últimas páginas de “the sun and her flowers”, de Rupi Kaur. Escrito em algum momento de 2018.


Sentir a aspereza da tua língua
É o meu desejo
As ondas das tuas papilas gustativas
[Essa expressão feia
E nada poética]

Estando com você
Eu não pensaria em poesia
Eu só seria
Seríamos

Faríamos barulho
Acordaríamos o casal de velhinhos do 203
A cabeceira da cama batendo na parede
O ranger do estrado
Eles nos ouviriam
E invejariam nossa juventude
Vitalidade
Viço

De repente, o futuro do pretérito não faz mais sentido
Íamos, faríamos, seríamos
Vale a pena
Imaginar-nos numa cama de casal
Num apartamento na Zona Sul
Enquanto ocupo uma cama de solteiro
Numa casa na Zona Norte?

Implorar
Inutilmente
Pela sua atenção
Migalhas em forma de
Curtidas e conversas vazias
Sobre assuntos desimportantes

Agir é temerário
Então continuo a imaginar-nos
No nosso 200 e quarto


excessivamente empática,
disse a psicóloga
sol em peixes

quadris estreitos
ombros largos
ascendente em aquário

excessivamente crítica,
dizem meus amigos
lua em virgem

dois capricornianos
povoam minha mente
vênus em áries

Ana Carolina Santos

Leitora e escrevedora de transporte público. Instagram: @santosacarolina

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