A menina boazinha de quem todo mundo gosta

Roteiro do segundo episódio do meu podcast, Caracoles

Ouça aqui.

Como alguém pode achar essa fofura má, manipuladora e mentirosa? 🥺

Na época em que esse documentário saiu, no inicio de 2020, eu fiquei sensibilizada pela situação da Taylor, mas não me identifiquei de pronto. Foi só quase dois anos e muitas sessões de terapia depois que eu entendi que sempre fui essa menina boazinha de quem todos gostam. E que buscava a aprovação dos adultos o tempo todo.

Veja bem, eu sou uma adulta. Tenho 25 anos de idade. Sou legalmente adulta há 7 anos. Já deveria estar acostumada, certo? Mas não tô. Sinto que minha idade mental é uns 17 anos. E eu sou essa adolescente (ou pós-criança) cujo ego, ou melhor, cuja personalidade se constrói a partir dos elogios dos professores por ter tirado 10 na prova, elogios dos meus pais por ser tão inteligente e boa aluna. Elogios dos pais dos amigos, que queriam ter uma filha assim.

Uma rápida anedota: quando eu era criança, a mãe de um dos meus melhores amigos me deu um CD original do Rouge, aquele que tinha glitter rosa, super lindo, e deu o CD pirata pro filho dela.

Só depois de muito tempo que vi o documentário da Taylor, entendi que esse Complexo da Boa Menina é algo sistêmico, que acontece com basicamente todas as mulheres. Nós somos criadas pra sermos essas meninas boazinhas. E pra continuarmos sendo meninas boazinhas, mesmo depois de adultas. A quem isso beneficia? A quem interessa que você seja uma menina boazinha que não questiona nada? Que busca o tempo todo ser agradável no trabalho, por exemplo?

Esse clique só veio pra mim há poucos meses, quando comecei a consumir mais ativamente conteúdos produzidos por mulheres feministas no Instagram e em podcasts, como o perfil da jornalista Dani Arrais no Instagram, que fala muito sobre Síndrome da Impostora, e o podcast Calcinha Larga, no Spotify.

Claro que antes eu já consumia conteúdos produzidos por mulheres na internet. Mas, do meu ponto de vista, é muito recente que a gente comece a dividir nossas angústias com o mundo e, que nesse dividir, a gente encontre outras mulheres que passam pelas mesmas coisas. E é aí que a gente vê que nada é por acaso. É tudo por causa do patriarcado.

Foi o sistema opressivo a mulheres que fez a Taylor Swift se recolher da mídia por um ano inteiro, entre 2016 e 2017. É o mesmo sistema que fez com que eu fosse essa menina agradável que se acreditava tímida por quase toda a vida. E hoje eu vejo que nunca fui tímida, sempre fui muito comunicativa, espontânea e empolgada. Mas, ao longo da minha vida, fui convencida de que era tímida, e isso de alguma forma me tolheu.

Quando lancei o primeiro episódio deste podcast, há mais de um mês, mandei pros meus amigos ouvirem. Dentre eles, uma amiga feita recentemente pelo Instagram. Mais tarde, nós nos falamos por telefone e ela me contou o que achou do podcast. E é claro que eu esperava elogios. A maior parte dos feedbacks que recebi foi dizendo que riram muito etc.

Mas pra minha surpresa — e estraçalhamento do meu ego — vieram críticas negativas. Ela disse que eu falo rápido demais (o que eu discordo) e que minhas ideias se atropelam, fazendo com que eu emende um assunto no outro e não conclua nada (o que eu concordo). Disse que não gosta do meu humor (esse golpe foi bem duro) e que eu fui pouco generosa com o livro (o que, novamente, discordo. Deixei claro que só havia lido 33 páginas, então muitas das minhas opiniões e achismos rasos poderiam vir a mudar — inclusive, eu devo terminar o livro lá pra março de 2022, porque ainda estou na página 46.)

O problema não foi a crítica em si. Afinal, eu pedi por ela. Perguntei o que ela havia achado do episódio. Mas a importância desmedida que eu dei à opinião de uma pessoa que eu mal conhecia. A gente tava trocando ideia há… três dias. Fiquei bastante mexida com essa conversa. Marquei terapia e psiquiatria pro dia seguinte. Cogitei desinstalar o aplicativo do Instagram, talvez até excluir minha conta.

Na sessão de terapia, entendi algumas coisas sobre mim: eu me acostumei a ser aplaudida, e minha opinião sobre mim e sobre o que eu produzo está muito atrelada ao que os outros pensam de mim e do que eu produzo. O que é um grande problema. Só muita terapia na cabeça pra construir uma ideia mais saudável de autovalor.

Nesse momento — hoje é dia 5 de outubro de 2021 — , eu tenho escrito coisas de que gosto: poemas, ensaios, contos e os tenho publicado no Medium e no Instagram. Tenho tirado fotos de que gosto. Até gravei sem querer um podcast, e eu gostei e publiquei. E é um podcast sem linha editorial, mas eu sempre quis ter um podcast pra falar sobre tudo e nada.

Tenho gostado de criar. Tenho gostado do que produzo. E não tenho tido medo de dividir isso com as pessoas. Mesmo que eu tenha o feedback de cinco pessoas, de cinco amigos meus. Ou três amigos meus e dois semiconhecidos. Independentemente dos aplausos, curtidas e comentários, gosto de saber que tenho “atingido” pessoas. E quero aprender a lidar com críticas negativas que eventualmente vou receber deles, de conhecidos e de desconhecidos. Quero que minha opinião sobre mim mesma tenha fundação sólida dentro de mim. Que o fato de que eu gosto do que eu produzo baste.

Instagram: @caracolespodcast
Disponível em outras plataformas de streaming.

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Leitora e escrevedora de transporte público. https://linktr.ee/santosacarolina

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