‘A mulher da casa abandonada’ e a diferença entre as riquezas do Rio e de São Paulo

Enquanto ouvia os primeiros episódios de A mulher da casa abandonada (Folha de S.Paulo, 2022), me surpreendi pelo fato de conseguir me localizar geograficamente. O jornalista e escritor Chico Felitti, criador do podcast, relata ter conhecido a mulher do título quando ela protestava contra a derrubada de uma árvore na praça Vilaboim. Um sino soou.

Há quase três anos, frequentei brevemente o bairro de Higienópolis, no Centro de São Paulo, em uma viagem a trabalho (soa chique, mas nem é). O evento no qual labutei foi realizado na Faap, uma faculdade que mais parece um mistura entre igreja católica renascentista e shopping dos anos 2000 na Barra da Tijuca. Eu não fazia ideia de que a Faap era onde os mais ricos de São Paulo estudavam, caso não conseguissem passar na USP.

Deixei a convenção para ir em busca de uma farmácia. Não me lembro do que precisava. Capaz de ter sido um absorvente. Alguém me apontou a drogaria da Vilaboim — provavelmente a mesma em que Chico comprou um nova máscara de proteção para a fugitiva da casa abandonada. Após ter adquirido o objeto misterioso de que precisava, atravessei a rua, passei por dentro da praça e li seu nome na placa. Uma música começou a tocar na minha cabeça.

Era a paródia de What Makes You Beautiful, do One Direction. A nova letra, em português, exaltava as qualidades de um garoto judeu que se preparava para seu Bar Mitzvah. Esse foi um dos maiores memes de 2012. Lembro-me de como meus amigos do ensino médio e eu cantarolávamos a versão paulistana do sucesso do grupo inglês em sala de aula. Até hoje, se ouço a melodia de What Makes You Beautiful, canto internamente: “E os meus pais são demais, como eles não tem…”

[O próprio Chico investigou a anatomia do meme do Bar Mitzvah em seu outro podcast, Além do Meme. Ouça aqui.]

Na continuação do refrão, ouve-se: “Jogo basquete e vou pra Vilaboim / Em casa, é só videogame, PC e TV”. Eu nunca havia pesquisado no Google que diabos era isso de Vilaboim. Me contentava em saber que a Baleia pra onde ele e sua família viajavam nas férias era uma praia no litoral do estado de São Paulo. Vilaboim era só mais um lugar da cidade com nome engraçado. Tipo Itaim Bibi e Jaçanã.

Voltei para a Faap por uma ruazinha em L chamada Tinhorão. Como Chico, reparei que ela era composta por casinhas bonitinhas. Antes de pegar a Tinhorão, fiz uma foto de um prédio muito do charmosinho: as cores predominantes eram o vermelho e o amarelo (uma combinação que muito me agrada); o pátio, uma espécie de bosque com um verde abundante. Após a viagem, publiquei a foto no Instagram.

Foto tirada por mim em outubro de 2019

O que eu não imaginava era que esse prédio de ladrilhos vermelhos e amarelos era o célebre Edifício Louveira, um dos mais conhecidos da cidade. Pra mim, ele parecia um prédio normalzinho até, quase de conjunto habitacional. E não escrevo isso pelo prazer de ser polêmica ou gozar da cara da elite paulistana. Foi mesmo a sensação que tive. Nada de espetaculoso.

Nem ao menos sabia que Higienópolis era o bairro mais AAA+ de São Paulo. Sabia que era um dos. Não o mais. Até porque a Higienópolis carioca, que fica entre Bonsucesso e Del Castilho, na zona norte, é um bairro bem mais de boa, classe C. Então o nome não me evoca riqueza e pompa.

Demorei a buscar a imagem da tal casa abandonada. Na verdade, ela chegou a mim através de pessoas que sigo no Instagram. A casa é descrita como uma enorme mansão em ruínas, que rememora as glórias do passado da família da criminosa que lá mora. Na minha cabeça, ela era bem mais imponente do que de fato é.

Em entrevista ao podcast Tá Mutado!, Chico afirma ter recebido mensagens de pessoas dizendo que imaginaram a casa bem maior e mais opulenta. Assim, de alguma forma, me senti respaldada para escrever esse texto. Não fui a única a ficar “decepcionada” com a mansão higienopolitana.

Foto: Reprodução/Google

Sendo alguém que mora no subúrbio do Rio, meu referencial de riqueza é a zona Sul da cidade. Vivi a maior parte da minha vida circunscrita ao meu bairro e aos bairros adjacentes. Apenas extrapolei os limites do subúrbio quando fui estudar no campus da UFRJ na Praia Vermelha, entre Botafogo e a Urca.

Na infância, ia às praias da ZS no máximo duas vezes ao ano. Ainda hoje, é um périplo ir da zona norte para a zona sul. O transporte público faz questão de dificultar o acesso às áreas nobres. O metrô tá custando R$ 6,50. Ir à praia era um evento. Tínhamos de acordar muito cedo para chegar muito cedo ao ponto final do 484 (Olaria x Copacabana).

A zona sul tinha algo de idílico. Um sonho distante. Algo a se almejar. Os dias de verão na praia. Queijo coalho no espeto. Guaravita gelado — só os zonassulenses curtem Mate; a gente prefere Guaravita. Eu não problematizava a zona sul. Apenas a associava a sensações boas.

Lembro-me da primeira vez em que a disparidade social que existe no Rio de Janeiro me esbofeteou a cara. Já mais velha, na adolescência, passei de carro com a minha família pelo túnel que separa a Barra de São Conrado e dá de cara com a Rocinha, a maior favela do país.

Raiva. A sensação foi essa. Raiva. Porque havia uma favela gigante e paupérrima no meio de um bairro pequenino e riquíssimo. Como era possível essa porra dessa cidade permitir uma coisa dessa? Como isso não é imoral? Como não é inaceitável? Como que São Conrado tem um dos metros quadrados mais caros do Brasil e a Rocinha tem gente passando fome?

A zona sul do Rio é opulenta pra cacete. As mansões (poucas, assim como na Higienópolis paulistana) são enormes. Os prédios, mesmo os antigos, carregam algo de “eu tenho, você não tem”. Os porteiros, grande parte de origem nordestina, sabem julgar se você é de lá ou não e te olham de cima abaixo se você não for.

Um bairro como a Gávea, por exemplo, é tão opressivo que, quando fui fazer o vestibular da PUC-Rio (o estado pagou pela minha inscrição), apenas uma (1) pessoa me dirigiu a palavra: a aplicadora da prova. Qual era a cor da pele dela? Isso mesmo, preta. Já fui seguida em drogarias de Botafogo. Enquanto transitava por Ipanema, fazia questão de não desviar das pessoas, que partiam do pressuposto de que eu lhes daria passagem por não “pertencer”. Uma lógica de servente e servida. Pode passar, m’lady.

Até o ar da zona sul é diferente. Você sai do Túnel Santa Bárbara ou do Rebouças e respira outra atmosfera. Talvez seja a proximidade com a praia. Talvez seja coisa da minha cabeça. A temperatura é mais agradável por causa da brisa do mar. A cidade toda é um inferno dantesco em todas as estações do ano (Bangu que o diga), mas a zona sul tem um ar-condicionado natural. E olha que nem precisava. Dá pra se refrescar na praia. A gente nem tem essa opção. O Piscinão de Ramos é sujo pra caramba.

A topografia da cidade do Rio de Janeiro permitiu que a população mais pobre construísse moradias nos morros. Quer dizer, com o fim dos cortiços, só sobrou essa opção. Aqui, morro é sinônimo de favela. Como São Paulo não tem esses acidentes geográficos, acaba que os bairros nobres são mais “exclusivos”, penso eu.

Teve aquela história de que os moradores de Higienópolis não permitiram que se construísse uma estação de metrô no bairro. Isso rolou aqui também. Era pra ter uma estação perto do Shopping Rio Sul, na divisa entre Botafogo e Urca. Essa estação seria de grande valia para estudantes da UFRJ e da Unirio, sem mencionar os trabalhadores do shopping.

Aqui tem favela em todo lugar, inclusive na zona sul. Várias. O que torna tudo ainda mais promíscuo. Ilhas de pobreza em meio a bairros ricos. O absurdo é escancarado. O que é pior? Um bairro exclusivo para a alta roda em que pobre nem pisa porque não tem metrô (a não ser as empregadas domésticas, porteiros e demais prestadores de serviço que se lascam pra acessá-lo) ou um bairro exclusivo que tem no morro sua senzala particular? Racismo à carioca ou à paulistana. Você escolhe.

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Leitora e escrevedora de transporte público. https://linktr.ee/santosacarolina

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