Amor

Ou ‘Radiografia do meu quarto’

Vivo em um mundo lilás
Minha janela é grande
Minha casa é de frente pra rua
O sol me abençoa o dia inteiro

Vivo em meio a montanhas de livros
Tenho 27 livros de cabeceira
(acabo de contar)
Gosto de perfumes doces
Decoração de Londres
me acompanha
desde a adolescência
(Embora hoje prefira Paris)

Minha cama é de solteiro
Tenho uma bandeira LGBTQIAP+ na cabeceira
Meus móveis são de madeira
(Os seus são brancos, tenho a impressão)
Falta comprar uma estante pros livros

A única maquiagem que tenho
é um batom vermelho
Só tenho oito CDs e 10 DVDs
Dei todo o resto pro meu psicanalista
Estou te dando minha adolescência,
disse, fazendo um gracejo
Os livros dominam meu quarto e a mim

Tenho um laptop ruim
Mal consigo trabalhar
Caminhão de bênçãos que me atropelou,
escrevi num pedaço de papel

Há duas imagens de casais na minha parede
Na primeira, um casal interracial
faz das pernas um do outro
um encosto para as costas
Eles estão na praia e riem
Satisfeitos pelo amor que compartilham

Na segunda, a mulher está deitada no chão
e seu amor, sem camisa,
está em cima dela, a beijar seu pescoço
Ela está de olhos fechados,
entorpecida pelo toque

Tinha a esperança
de que adicionaria uma terceira foto
à minha parede do Amor
Eu e você
Olhando devotamente um para o outro
Inebriados pelo amor que viríamos a compartilhar

Mas por enquanto
apenas esses dois casais de estranhos,
cujas fotos recortei do catálogo
de uma exposição no CCBB,
habitam minha parede

(E seu nome não está cravado na minha cabeceira)

Escrito em dezembro de 2020.

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Leitora e escrevedora de transporte público. https://linktr.ee/santosacarolina

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