A atriz e a criança

Bad trip, síndrome da impostora e daddy issues

u não mereço. Eu não mereço isso.” Afirmava com uma pitada de melancolia enquanto C, esposa de R, dizia que o marido morria de orgulho de mim. C é uma proeminente editora de livros e escritora. R é professor universitário, editor e escritor. Eu estava na casa de L, badalada chefe de cozinha, em um bairro nobre de São Paulo. O que eu, uma garota negra do subúrbio do Rio fazia lá? Bom, nem eu sabia. Era a deslocada estagiária de uma revista cujo público-alvo é a classe média alta brasileira. Fui à festa com meus colegas de trabalho após termos terminado nossas obrigações na capital paulista. A alta roda dos jornalismos carioca e paulistano estava lá. Eu quis ir embora assim que pus os pés naquela casa de dois andares, abarrotada de livros, discos e filmes em todas as paredes. Estava exausta após o fim do trabalho. Havia dormido mal (ou não dormido de todo) nos quatro dias em que estava em São Paulo. Fui ao banheiro a fim de pensar um pouco. Para a minha surpresa, a imagem no espelho não refletia meu cansaço. Me achei linda. Com um batom berinjela e lápis de olho preto. Pensei: “Estou bonita demais para ir embora. Seria um desperdício.” Resolvi ficar. Para relaxar e tentar criar laços com aquelas pessoas com as quais não criei em quase um ano de redação, bebi como nunca. Devo ter tomado umas oito long necks de Heineken. Tentei dançar. Mas o DJ só tocava umas músicas étnicas (?) desconhecidas e nada dançantes. Eu queria um pop, uma MPB, qualquer coisa minimamente reconhecível. Percebi um grupinho reunido no jardim, passando um beck. Fui lá numa tentativa de me entorpecer ainda mais e finalmente me divertir. Me intrometi na rodinha e dei meus tragos. Após alguns minutos, R enfiou a cabeça no centro da roda. “Está tudo bem por aqui?”. Me senti tão especial. Ele era, naquele momento, o pai que eu nunca tive. Veja bem, eu tenho um pai. Mas não um pai como R. Um pai intelectual, brilhante, escritor publicado pela Companhia das Letras, leitor e tudo mais. R veio até nós porque estava preocupado comigo. Na certa ele não esperava que eu, uma universitária certinha e devoradora de livros, fumasse maconha. E ele estava certo. Eu era absolutamente virjona de marijuana. Nada radical. Nada descolada. C estava por ali e disse pra mim: “Você não faz ideia do quanto que o R fala de você. Ele morre de orgulho de você.” E foi nessa hora que eu fiquei emocionada. Cheia de ternura por aquele casal. Aquele meu professor querido, que tanto me ensinou, que eu tanto admirava. C, que eu conhecia pouco, mas já admirava imensamente. Ternura pelo meu professor, quem eu queria ser no futuro e quem eu amava. Ternura por C, quem eu também queria ser e poderia vir a amar. Eu queria ser a filha daquele casal. E amante daquele casal. Queria ser tutelada por eles. Discipulada. Afilhada. Amigada. Adotada. Queria frequentar a casa deles. Aliás, as casas deles. A de R, na área nobre do Rio. E a de C, na área nobre de São Paulo. Belos, brilhantes e moram bem. Enquanto ouvia aqueles elogios, eu só conseguia dizer: “Eu não mereço isso, eu não mereço.” Já estava mais pra lá do que pra cá. As Heinekens e o baseado bateram. Eu mal conseguia deixar meus olhos abertos. Entorpecida, meus sentimentos mais reais vieram à tona. Eles sempre estiveram lá. A minha vida toda. Eu não mereço. Eu não mereço a admiração de um intelectual respeitado. Eu não merecia aquele estágio na mais conceituada revista do Brasil. Eu não merecia estar num bairro chique de São Paulo, no meio de todos aqueles jornalistas importantes. Quem eu pensava que eu era? Aos poucos, as pessoas foram deixando a rodinha e sobrou pra mim o beck. Ele não estava tão pequeno assim, então fumei-o por uns bons minutos. Depois disso, voltei pra dentro da casa. Sentei num sofá e senti meu rosto inchado. Uma sensação que eu nunca havia tido antes. Fazia movimentos com a boca, abri-a e fechava-a pra sentir meu rosto. Fui ao banheiro para ver minha face inchada no espelho. Ela não estava inchada. Eu continuava ótima, linda. Apenas meus olhos agora estavam vermelhos pela ingestão da canabis. Voltei à sala e conversei com uma colega estagiária. Me abri pra ela: “Não sinto que pertenço aqui. Eu vejo essas pessoas todas dançando e eu não acredito na dança delas. Elas estão encenando. Ninguém gosta dessas músicas. Essas músicas não são dançáveis. Eu quero ir embora.” Por algum motivo, eu achava que não tinha direito de ir embora antes do fim da festa, que pegaria mal, que seria indelicado — como se alguém ligasse pra minha presença ou ausência ali. Minha colega estagiária me incentivou a ir embora. Disse que nunca se força a fazer nada que não queira. Senti muita ternura por ela naquele momento. Pedi um 99 e rumei para o hotel. No carro, eu continuava doida. Os pensamentos na minha cabeça passavam muito rápido. Em dado momento, pensei: “Eu não estou tão louca assim. Eu ainda lembro a senha do meu cartão. Eu vou conseguir pagar a corrida.” E ri desse pensamento. Ri muito. Ri alto. Aí comecei a chorar. Foi uma cena de filme. O riso virou choro. Isso nunca havia acontecido comigo. O motorista perguntou o que estava acontecendo. Ele foi sensível e gentil. Não devia ter mais do que 21 anos. “Eu me sinto muito sozinha. Não tenho ninguém pra conversar. Sou solitária.” Ele disse que também se sentia sozinho. Só conversava com a mãe. Eu me abrir completamente com ele. Em dado momento, comecei a fazer um sotaque português. Quando notei que estava falando daquela maneira, me perguntei por quê. “Será que é porque eu tenho uma bisavó portuguesa?” Achava ridículo estar falando com aquele sotaque, mas não conseguia parar, ora pois. Aos poucos fui me acalmando. Até que chegamos ao destino. Paguei a corrida e desci do carro. Eu não havia reparado, mas o motorista me deixou numa ruazinha adjacente ao hotel. Eu via as portas transparentes do lobby, mas a entrada não era por ali. Isso me confundiu. Os seguranças notaram minha presença ali, do lado de fora e começaram a me orientar para que eu fosse para a porta da frente. Mas eu estava tão fora de mim que não conseguia me achar. Um dos seguranças teve que ir lá fora me buscar e me levar para dentro. Me dei conta de que estava no mesmo hotel em que todos os meus chefes e colegas de trabalho estavam hospedados e surtei. Pedi, pelo amor de Deus, para que os seguranças não contassem pros meus editores que eu chegara naquele estado. Eles me acalmaram e disseram que ninguém saberia. Eu só fazia agradecê-los por sua gentileza. Chegando no quarto, fui direto para o banheiro. Sentei na privada e meu monólogo seguiu. Eu simplesmente não conseguia calar a boca. Pareceram horas. Não parei de falar nem quando a colega que dividia o quarto comigo chegou. Me lembro que falei “A Fulana chegou, eu tenho que parar de falar.” Mas não parei. A profusão de pensamentos e lembranças continuou. Eu gritava “Pai! Mãe! Vó!” Lembrava de experiências que tive com eles. Lembrei de coisas que havia esquecido. Como quando eu tinha uns 4 anos e parte da minha família foi pra Caravelas, na Bahia. A minha prima mais nova era um bebê na época e foi junto. Um dia, durante a viagem, eu estava na casa da minha avó e comentei com a minha tia: “Tem tanto tempo que não vejo a J que já tô esquecendo como ela é”. Aí a minha tia respondeu: “Ah, ela é serelepe, espoleta.” Eu tava me referindo à feição dela. Estava esquecendo o rosto da J. Outra passagem que lembrei foi quando eu tinha 14 anos e havia ido fazer a prova do CAp-UFRJ. Meu pai me buscou, e a gente fez almoço quando chegou em casa. Nós dois juntos. Fizemos um macarrão com um molho bolonhesa incrível. Como nunca antes havíamos feito. Eu tava tão feliz com aquele momento de comunhão com meu pai — aquele homem inculto, tão diferente de R, mas que eu amava. Minha mãe chegou do trabalho e encontrou o almoço feito. Nós comemos juntos, como uma família. Foi um dos nossos últimos momentos como família — era fim de 2010; meus pais se separaram em janeiro de 2011. Mas o momento foi arruinado quando meu pai me chamou a atenção por estar comendo muito. A comida estava tão gostosa que eu quis repetir. E ele criticou meu peso, como sempre fazia. A emersão dessa lembrança fez com que eu entendesse várias coisas sobre mim mesma. Meus traumas. Meus daddy issues. Meus problemas com meu peso e autoimagem. Em dado momento, enquanto chamava todas as pessoas da festa de falsas, me olhei no espelho e questionei: “Será que eu sou falsa?” A partir daí, o monólogo virou uma encenação. Eu era uma atriz fazendo caras e bocas no espelho. Era meu vídeo na cerimônia do Oscar. Eu estava indicada ao prêmio de melhor atriz. Por fim, saí da privada e fui tomar banho. Ainda tagarelei no chuveiro, mas quando deixei o banheiro, vi que minha colega dormia em sua cama. Parei de falar, peguei o celular e mandei mensagens desconexas para minha mãe. Eram quase duas da manhã. Pobre da minha mãe. Achou que eu fosse me matar. Acordei na manhã seguinte às 8h. Vi a quantidade de ligações que minha mãe havia feito pra mim. Me senti culpada. Tranquilizei-a. Fui tomar café da manhã. Fiquei feliz por lembrar de boa parte das coisas que havia feito na noite passada. Enquanto bebia um suco verde, comecei a escrever tudo que lembrava. Só finalizei o texto quase dois anos depois. Hoje.

Leitora e escrevedora de transporte público. Instagram: @santosacarolina

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