Cruzar a cidade em um ônibus de linha

A cidade a partir da janela do ônibus (Centro do Rio/2017)

Antes da pandemia, eu era quase uma habitante nativa dos ônibus municipais do Rio de Janeiro. Pegava cinco deles por dia. Pisava em três zonas da cidade. Perdia quatro horas e meia diárias no trânsito. Era um inferno. Mas também era o paraíso.

Eu usava essas quatro horas e meia diárias para ler e escrever. Tanto que minha bio no Medium era e continua sendo “Leitora e escrevedora de transporte público”. Eu só lia tanto e escrevia tanto porque passava tanto tempo em coletivos.

Perdi a conta das crônicas e poemas que escrevi inspirados por viagens de ônibus ou metrô. Estava conversando ontem sobre isso com uma amiga. Uma boa maneira de forjar a inspiração é pegar um ônibus e cruzar a cidade. Observar o caminho. Ouvir conversa alheia. Puxar papo com um desconhecido.

Na semana passada, peguei o 483 (Penha x General Osório) pela primeira vez em… sei lá, quase três anos. Certamente desde antes da pandemia. Fui para Copacabana levar uns livros que havia vendido pela internet — fazia mais sentido financeiramente pegar um ônibus e ir levá-los para a nova dona do que enviá-los pelo correio.

Enquanto estava sentada, observando a paisagem e ouvindo Taylor Swift (claro), eu pensava o quanto isso me fez falta em todos esses meses circunscrita à minha casa ou ao meu bairro. Bastava o ato de pegar um ônibus e ficar um bom tempo nele, até chegar ao longínquo destino.

Lembrei que cheguei a pegar o 497 (Penha x Laranjeiras) no meio da pandemia, janeiro/fevereiro de 2021. Fui algumas vezes à casa de um amigo no Bairro de Fátima, no Centro. Estava muito mal. Não conseguia ler ou ouvir música.

Minto. Só conseguia ouvir duas músicas: Zumbi, do Jorge Ben Jor, e evermore, da Taylor com o Bon Iver. Zumbi, porque era a única coisa que me fazia sentir alguma coisa remotamente próxima de alegria. E evermore, porque me permitia chafurdar na miséria.

O 483 e o 497 fazem o mesmo itinerário da Penha até a Rodoviária Novo Rio, no Santo Cristo, região central. Enquanto eu habitava o 483 na semana passada, lembrava do meu eu que habitou o 497 mais de um ano atrás. De onde saímos e onde chegamos. Não que eu esteja ótima. Mas pelo menos não acho que minha dor existirá for evermore.

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Leitora e escrevedora de transporte público. https://linktr.ee/santosacarolina

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