‘De que lado você mora?’ — Uma ode a Olaria

Só os melhores bairros têm o privilégio de possuir uma estação de trem.

Alguns bairros do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense têm uma peculiaridade: eles são divididos. Não me refiro à disparidade social que há, por exemplo, entre os moradores da Av. Atlântica e os do Morro da Babilônia, no Leme. Estou falando de uma divisão física mesmo, ocasionada pelas linhas de trem que partem da Central e vão rasgando as vizinhanças até Deodoro, Santa Cruz, Japeri, Belford Roxo, Saracuruna…

No subúrbio, não tem essa de diferenciar as regiões com “ocidental”, como as Virgínias americanas, ou “do sul” e “do norte”, como as Dakotas e as Carolinas. Aqui é no referencial. Em Olaria, por exemplo, assim que conhecemos um conterrâneo, perguntamos de que lado o sujeito mora. E o indivíduo responde: “Do lado do Choppinho/do 16º/dos conjuntos ou da Balbino/do Olaria”.

Explico: Choppinho é o clássico restaurante que atingiu seu apogeu nos anos 90 e hoje virou o “Golden Rio Grill”, que nem de longe faz jus ao grande Choppinho de outrora. Décimo sexto é o 16º Batalhão de Polícia Militar, que zela pela paz do bairro (risos). Os conjuntos são os Conjuntos da PM, um grupo enorme de prédios de quatro andares e 16 apartamentos, habitados, em sua maioria, por famílias de policiais militares, muitos deles do 16º — eu morei boa parte da minha vida em um desses apartamentos.

O Choppinho, o 16º e os conjuntos ficam no mesmo lado. O lado da Rua Uranos e do Cacique de Ramos (que, acredite se quiser, fica em Olaria. É verdade. Joga no Google pra você ver). Já a Balbino e o Olaria ficam no outro lado de Olaria — pra mim, é o outro lado, afinal sou cria dos conjuntos, mas, de novo, é tudo questão de referência. A Balbino é uma clínica particular pela qual toda criança olariense já passou. O Olaria é, claro, o Olaria Atlético Clube, da Rua Bariri — aqui atentar para o uso do artigo: quando falamos “o” Olaria, é o clube; quando não usamos artigo, estamos falando do bairro, “de Olaria”, “em Olaria”. Ah, não confundir o Olaria com o Olariense, outro clube — este fica no lado do Choppinho.

Foto provavelmente tirada em 1986, ano em que saiu “Os Trapalhões e o Rei do Futebol”.

O Cinema é uma entidade que transcende lados. O Cinema é de Olaria e ponto. Oficialmente, ele fica na Uranos, mas nós o dividimos com nossos irmãozinhos do lado da Balbino. Foi no Cinema que meus pais tiveram um de seus primeiros encontros — foram ver “Pulp Fiction” nos idos de 1995. Eu nunca fui ao Cinema, pois ele está fechado desde que me entendo por gente. Mas cresci ouvindo rumores de que ele reabriria. Nós, olarienses, ficamos nessa eterna esperança. Quem sabe um dia não acontece?

Olariense de raiz tem mania de andar no meio da rua. E quando transita em outros bairros quer fazer a mesma coisa. Mas não há ruas como as de Olaria. Nosso esgoto a céu aberto tem odor e pigmento únicos. Nosso valão tem uma poluição característica — ele se chama Rio Nunes, mas ninguém nunca se lembra. Nossos carros andam na contramão com um charme que só se encontra aqui. Até as buzinas têm outro som.

Olaria faz parte de uma liga de bairros que, honestamente, eu não conheço algo semelhante em nenhum outro lugar do Rio. Falo da Leopoldina, composta por Penha, Olaria, Ramos, Bonsucesso e Manguinhos — notem que eu segui a ordem do trem. Há aqui um grande sentimento de irmandade. Um olariense encontrar um morador da Penha na Zona Sul dá em festa. A gente é farinha do mesmo saco. Dizem que a Leopoldina é a região mais antiga da Zona Norte. Deve ser da época dos Rego. Quem são os Rego? Os Rego devem ter sido os proprietários das terras que hoje formam Olaria, porque, olha, como tem rua com o sobrenome Rego: Leopoldina Rego (claro), Joana Rego, João Rego, Joaquim Rego, Antônio Rego, Major Rego... Algo semelhante ao que acontece entre Braz de Pina, bairro onde moro hoje, e a família Enes — mas isso é assunto pra outro texto.

Olaria respira PMERJ. E digo isso no melhor dos sentidos — hoje eu não vou problematizar. Nosso bairro é habitado por muitos e muitos PMs. Temos o 16º, a Policlínica de Olaria — ela anda capenga, mas já tirei muita cárie de meus dentes lá quando pequena. As viaturas se misturam aos táxis da cooperativa Leopoldinense Táxi — que nunca tem carro disponível quando a gente mais precisa, como por exemplo, num domingo à noite, depois do Faustão.

Não sei se é impressão minha, não sei se é reflexo da nossa herança militar, mas olariense é apegado à tradição. Continuamos a chamar o Choppinho de Choppinho, mesmo depois de todo esse tempo. Ainda chamamos o supermercado Real de Real, apesar de ele ter se tornado Supermarket há, no mínimo, uns 15 anos. Continuamos a nos referir àquele ônibus que vai pra Copacabana como 484, embora hoje ele se chame 284 e só vá até a Candelária. Aqui tudo fica.

O que a gente mais gosta de fazer é reclamar de Olaria. Que não tem shopping, que não tem opções de lazer, que nem um milkshake tem onde se comprar — aliás, abriu um Bob’s aqui. Mas pra mim, Olaria sempre foi sinônimo de família. Sinônimo de casa da vovó Maria. Casa cheia de tias, tios, primas, primos. Almoço de domingo. Frango assado, farofa. Nada de luxo, nada extravagante, mas suficiente para todo mundo — e ainda sobrava pra gente levar pra casa em potes de sorvete.

Olaria, na minha cabeça, significa infância feliz brincando no pátio do prédio. A gente fala prédio, não edifício. A gente fala pátio, não playground. Naquela infância do fim dos anos 90 e início dos 2000, nossa brincadeira era fazer pipa com barbante e saco de supermercado — do Real, é claro. Nossa maior alegria era terminar uma tarde de janeiro debaixo de chuva de verão. Evento era avião passar no céu e nós gritarmos AAAAAAAAAAAAA o mais alto que podíamos.

Olha, vou confessar que Olaria é perigosa. Vira-e-mexe tem tiroteio — uma vez fui pegar o 625 na Cascatinha e tive que voltar pra casa da minha vó, porque a bala tava comendo solta. Mas, apesar disso, Olaria é onde me sinto mais segura em todo o Rio de Janeiro. Nem as confortáveis ruas da Urca, onde estudo, me proporcionam tamanha satisfação. As ruas de Olaria carregam as pegadas do meu pai, do meu avô. Elas ecoam cumprimentos tipicamente olarienses — “fala, sangue!” é um clássico. Aqui, quase todos os homens têm como apelido Negão. E sempre tem um Negão andando no meio da rua.

Uma modesta homenagem ao meu pai Jorge Luis, à minha mãe Vania, à minha avó Maria, ao meu avô Jorge Pedro, às minhas tias Lena, Marlu, Ana, Dinha e Cleide e a toda a família Santos.

Leitora e escrevedora de transporte público. Instagram: @santosacarolina

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