Eu conheço essa árvore

Eu conheço essa árvore
Acho que fica em Ipanema
É, só pode ser Ipanema
Eu andei por Ipanema quase um ano inteiro
Dois anos atrás
Tocava as árvores de Ipanema à noite
Depois do expediente
Pra me restabelecer alguma energia vital
Acarinhava as folhas das árvores de Ipanema
Como minha avó ensinou
E elas me faziam carinho de volta
Como dissessem
Você tá bem
Tá tudo bem
Ou vai ficar
Pensava em Oxóssi e lhe pedia força
Ia pro metrô de Nossa Senhora da Paz com algum alívio
Guerreava por um assento em Botafogo com algum divertimento
Até que não houve mais divertimento
Só tristeza, raiva e choro
Porque eu
E aquela senhora negra com uma bolsa pesada
E aquele senhor negro com muleta
E aquele estudante negro com um black power
Precisávamos lutar
Um contra o outro
Por um lugar vago
Para que pudéssemos chafurdar na nossa miséria
Enquanto rumávamos pra Pavuna
Com algum conforto
O divertimento
Os risos
Os gritos
A alegria por conseguir um assento
Deram lugar à incredulidade de ter de passar por essa porra de situação fodida
Todo santo dia
De Ipanema a Vicente de Carvalho
São 24 estações
Às vezes eu ia sentada
Se as árvores me trouxessem alguma sorte

Escrito em abril de 2021.

Foto de Alice Sant’anna

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Leitora e escrevedora de transporte público. https://linktr.ee/santosacarolina

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