Problematização retroativa de ‘Cartão Postal’, do Exaltasamba

Capa do álbum “Cartão Postal”, de 1998, homônimo à canção problemática

Eu amo Exaltasamba. Amo mesmo. Real. Genuinamente, não “ironicamente”, como os jovens descolados (as chamadas cool kids) gostam de fazer quando não querem assumir que apreciam algum elemento da cultura popular. Ouço regularmente as músicas, desde as dos anos 1990 até as da era Thiaguinho. O Exalta lançou o primeiro álbum, “Eterno Amanhecer”, em 1992, e despontou para todo o Brasil com o disco “Luz do Desejo”, que saiu em 1996, ano em que nasci. Então cresci ouvindo canções icônicas como “Gamei”, “Telegrama” e “Preciso de Amor ” nas festas de família.

Mais tarde, em 2009, o Exalta lançou o que viria a ser meu DVD musical favorito da vida, batendo “ MTV Unplugged in New York”, do Nirvana. Associo “Ao Vivo Na Ilha da Magia” a uma das melhores lembranças da adolescência: toda a minha família reunida em Praia Seca, na nossa casa de praia, no verão daquele ano. A gente ia de carro e assistia ao show a viagem inteirinha. E lá, ainda deixávamos tocando enquanto fazíamos churrasco.

Esses dias, enquanto tomava banho ouvindo minha playlist Exalta Raiz, que contém apenas os hits da década de noventa, a letra de uma das músicas me encucou. Trata-se de “Cartão Postal”, contida no álbum de mesmo nome, lançado em 1998. Veja bem, eu já ouvi essa música aproximadamente 189.356.727 vezes ao longo da vida. Ela, como outras canções do Exalta, estão intimamente ligadas às minhas memórias infantis em Olaria e em Guadalupe, bairros da minha família paterna e materna, respectivamente. Então, acredito que, por causa da nostalgia, eu nunca tenha parado para analisar verdadeiramente as letras das músicas, além de sentir a emoção que elas me causam.

Pois bem. “Cartão Postal” se trata de uma chantagem acerca de um nude.

Minha reação quando percebi isso

É, amigas e amigos, uma das minhas músicas favoritas do Exalta retrata um comportamento abusivo travestido de amor. Façamos uma análise da letra:

Como sempre, distraída
Te filmei você não viu
É a coisa mais bonita
O seu corpo de perfil

No primeiro verso, vemos claramente que a namorada do eu lírico é pisciana (“como sempre, distraída”) e portanto um alvo fácil. (Ok, uma tentativa falha de humor. Sigamos.)

Pode parecer bobagem
Um impulso infantil
Meu amor não é chantagem
Mas você me seduziu

É chantagem, sim, eu lírico! A seguir começa o problema:

Te proponho, amor,
Um trato: que tal se render?
Eu te dou o seu retrato,
Mas quero você

Manooooooo. É isso mesmo. Ele tá dizendo que só vai dar a foto íntima pra ela se ela transar com ele. Meu deus.

Você na foto toda nua
Num banho de lua,
Meu cartão postal
Meu corpo deu sinal

Caso não tenha ficado claro que ela tava pelada mesmo na foto. (Deixemos de lado o fato de que, no último verso da estrofe, a música descreve uma ereção.)

O meu desejo continua
Desejando a sua
Boca sensual
Meu sonho real

Acaba o refrão e a gente tem a sensação de ter ouvido uma linda declaração de amor e de desejo pela parceira. Encantador, né? Mas, em pleno século 2018, nós (especialmente mulheres) não conseguimos (nem podemos!) ignorar certas letras e padrões que hoje, felizmente, são condenados pela sociedade — ou deveriam ser.

Em 1998, duas décadas atrás, quando foi lançada a música, não existia WhatsApp e o famigerado grupo dos manos™ pra compartilhar pornografia e as nudes das gatas™. Nem Snapchat, pra mandar fotos íntimas com a suposta segurança de que elas vão se extinguir em 24 horas e você vai saber se a pessoa pra quem você mandou der print na foto.

Mas eu me pergunto o que o eu lírico faria se a mulher se recusasse a transar com ele. Revelaria a foto e distribuiria entre os amigos? Guardaria a imagem e continuaria chantageando a moça eternamente? Usaria a mesma como um cartão postal de fato e mandaria para os parentes em outra cidade? Pensamentos, pensamentos.

É claro que tenho ciência de que letras de músicas são arte e podem não ser autobiográficas. Mas também podem ser. Além disso, o mais importante nisso tudo não é se o autor da música realmente fez isso (aliás, de acordo com o Letras.mus, são dois autores: Carlito Cavalcante e Delcio Luiz), mas o fato de ela exemplificar um comportamento machista e inadequado.

Minha intenção não é demonizar a canção ou o Exalta (deus me livre!). Mas alertar para a questão de que, às vezes, nós passamos batidos por algumas coisas que repudiamos por elas estarem muito próximas a nós e talvez naturalizadas. Agradeço ao feminismo por ter treinado meus olhos para esse tipo de situação.

Vou parar de ouvir Exalta? Não. Tampouco “Cartão Postal”, que é, sim, uma bela canção — ouça abaixo. Eu, Ana Carolina, hoje, dia 23 de abril de 2018, sou da opinião de que não precisamos PARAR de ouvir músicas com letras ~esquisitas~. Uma das minhas canções favoritas dos Beatles e a responsável por me fazer gostar da banda, no longínquo ano de 2008, é “Run For Your Life”, em que o eu lírico literalmente diz que vai matar a companheira se pegá-la traindo-o.

Exemplos não faltam na música brasileira e na de fora. “Agora vai sentar”, dos MCs Jhowzinho e Kadinho, foi um dos hits desse verão e eu cantarolei demaaais esse funk. “Every Breath You Take”, do Police, é um clássico e um stalking (perseguição) medonho. Minha posição se baseia no “ouvir criticamente”. Você consome a coisa, mas não deixa de ser ciente dos problemas que ela tem e busca discutir isso com amigos e família. Assim que percebi a bizarrice da letra de “Cartão Postal”, saí correndo e contei pra minha mãe. Ficamos horrorizadas, demos boas risadas e cantamos juntas: “meu sonhuuu reaaaal”.

Na moral, essa música é muito boa

Spotify pra quem é de Spotify:

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Leitora e escrevedora de transporte público. https://linktr.ee/santosacarolina

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