Produtividade, acaso e ‘Midnights’

Roteiro do quarto episódio do meu podcast, Caracoles

Ouça aqui.

N o início de setembro, fez um ano desde a publicação do primeiro episódio desse podcast. Esse é o quarto episódio, o que dá uma média de um episódio a cada três meses. Uma média excelente pros meus padrões.

Gosto bastante dos três episódios anteriores. A minha preferência segue a ordem de publicação: gosto mais do primeiro do que do segundo e mais do segundo do que do terceiro. O primeiro é meu favorito porque ele é espontâneo. Não escrevi roteiro. Só tava contando minhas impressões sobre o livro que tava lendo.

Escrevi roteiro pros outros dois episódios. Eu até gosto dos textos. Mas não gosto da minha interpretação. Não me passa naturalidade, não me dá vontade de reouvir, sabe? O primeiro, eu ouvi vaaaaárias vezes. Ia ao mercado ouvindo e dando risada. Como diria Anitta, “viciada no meu próprio CD”. (Se você não sabe do que eu tô falando, vá conhecer a instituição tuítes antigos da Anitta).

Quem manda muito bem na interpretação é minha amiga Marina Lua. Ela tem um podcast chamado “pega no sono enquanto eu te conto os meus surtos” e, comigo, foi amor à primeira ouvida. Encontrei o podcast da Marina do jeito mais aleatório possível. Tava num Uber, quando começou a tocar uma música de rap nacional que eu achei interessante. Anotei parte da letra e, mais tarde, pesquisei no Spotify o seguinte trecho: “noites em claro, tentando não me conter”. Mas não apareceu a música que eu tava procurando — depois descobri que a letra é “noites em claro, tentando não me envolver”, não “conter”.

Agora, parando pra pensar, uma versão é o contrário da outra. Na original, ele tenta não se deixar envolver pela parceira. Na minha versão, ele tenta não resistir aos sentimentos que têm. Ele quer sucumbir, apesar do medo e da hesitação. É aquele negócio, né: a gente lê no poema o poema que carrega dentro de si (parafraseando um poema do português André Tecedeiro). Eu, enquanto mulher que se relaciona com homens, queria que o eu lírico se entregasse ao amor ao invés de não baixar a guarda.

Em vez da música, apareceu o primeiro episódio do podcast da Marina, intitulado “aqui eu tento entender porque o terceiro encontro foi o último”. Esse título me pegou de pronto porque eu também tive uma “experiência amorosa” cujo terceiro date foi o último. E fiquei querendo um quarto, um quinto, um sexto. Mas é isso, né? A falta é inerente à condição humana.

Além do título, me identifiquei com diversos trechos do episódio (aliás, recomendo bastante. Tem só 9 minutinhos). Fiquei atônita tanto pelas coincidências, quanto pela qualidade do texto e pela interpretação da Marina. Por sorte, havia um box de perguntas ali no Spotify, e eu consegui entrar em contato com ela. Na nossa primeira conversa, pelo direct do Instagram, descobrimos ainda mais similaridades entre nossas histórias. A partir daí, engatamos uma amizade baseada na troca artística e na troça de caras do Tinder, hehehe.

Eu penso muito sobre o acaso. Flutuo entre ser uma “jovem mística” que acredita em destino e no fato de o Deus abraâmico promover encontros que serão cruciais em nossas vidas etc. E ser uma pessoa mais incrédula e achar que não existe nada disso de fio invisível e que coincidências são apenas coincidências. Venho fazendo as pazes com essas minhas oscilações e abracei o conceito do duplipensamento, que tá no livro “1984”, do George Orwell (não confundir com o álbum “1989”, da Taylor Swift. São 5 anos de diferença). Acredito em tudo e não acredito em nada. Não tenho nenhuma religião e tenho todas as religiões. Talvez no futuro eu faça um episódio sobre crença e fé. É um tópico que muito me interessa.

Falando em Taylor Swift, e aproveitando que eu citei a Anitta mais cedo:::::::: e os VMAs, hein? Que acontecimento. Anitta se apresentou no palco principal e fez questão de abrir a performance com um belo de um funkão carioca. A gata até meteu um “VMAs, did you think I wasn’t gonna shake my ass tonight?”, outro de seus memes clássicos. Depois, a nossa girl from Honório ainda venceu a categoria de melhor clipe de música latina, com “Envolver”, hit que chegou ao número 1 GLOBAL do Spotify.

“Noites em claro, tentando não me envolveeeer

O que a Anitta fez esse ano não é pouca coisa. Me enche de orgulho que uma mulher de 29 anos da zona norte do Rio tenha chegado tão longe. Eu sou da zona norte, e Honório Gurgel é um dos bairros com menos recursos de todo a cidade. Como a Anitta disse em seu discurso, quem nasce ali não acredita que haja um futuro bom pra si. A Anitta é um belo de um símbolo de esperança. Claro que é irrealístico pensar que toda jovem pobre do subúrbio vai virar uma cantora multimilionária, mas às vezes a gente só precisa de uma fagulha. Pode ser a Anitta. Pode ser uma professora que diz que a gente é capaz de entrar numa universidade. Pode ser um familiar que te incentiva e te dá suporte. A gente só precisa de uma fagulha.

Se eu soubesse editar, nessa hora colocaria uma musiquinha comovente por uns três segundos.

Mas vamo lá. VMAs. A girl from Rio brilhou lindamente, mas a grande vencedora da noite foi a girl from Pennsylvania, Taylor Swift. Caso ainda não tenha ficado claro, eu sou uma graaaande fã da Taylor Swift. Ela é de longe a artista que eu mais ouço desde 2019. A Taylor venceu as categorias de “melhor vídeo em formato longo”, “melhor diretora” e “vídeo do ano”, o maior prêmio da noite. Ela concorria pelo curta-metragem da canção “All Too Well”, versão de 10 minutos. A Sadie Sink, de “Stranger Things”, e o Dylan O’Brien, de “Maze Runner”, protagonizam o curta.

Eu sou suspeita, mas o clipe é esteticamente belíssimo, as atuações são boas, a letra da música é uma das melhores da carreira da Taylor… Vale a pena dar uma conferida, mesmo que Taylor Swift não seja seu “cup of tea”. (E se ela não for seu cup of tea e você não tiver nem aberto a provar esse chazinho da Nova Inglaterra, é você quem tá perdendo, irmão).

Maaaaaaãs::::: não foi só isso! Além de vencer esses prêmios, ela ainda anunciou que seu novo álbum sai em 21 de outubro!!!!!!!!!11 Vai se chamar “Midnights” e vai contar com 13 (wink, wink) canções, segundo ela, escritas ao longo de noites em que ela não conseguia dormir. Gente como a gente, a menina Taylor. Tem insônia, escreve música em homenagem à , música em homenagem à mãe e música ressentida pro pai. Daddy issues, quem não tem que atire a primeira lembrança traumática.

É sempre algo muito excitante quando seu artista favorito anuncia um lançamento. E a Taylor deve ser a artista musical mais produtiva do Sistema Solar. Esse vai ser o sexto álbum dela em três anos. Uma média de dois álbuns por ano. Média muito superior à minha com esse podcast.

Mas eu me perdoo, sabe? Eu não tenho quatro planetas em capricórnio como ela. Não tenho um patrimônio de 500 milhões de dólares. Não tenho um pai corretor da bolsa de valores. Tenho um pai funcionário público estadual, poucos reais na conta, três planetas em peixes e três em aquário. É claro que eu vou ser essa podcasteira super inconstante.

Aliás, aqui cabe um disclaimer: eu começo o último episódio agradecendo às 17 pessoas que ouviram os episódios anteriores. Pode ter soado como ironia, mas não foi. Eu realmente acho massa que 17 pessoas tenham tirado tempo pra ouvir mais que um episódio de um podcast sem edição, sem musiquinha e com uma âncora que deveria maneirar no sotaque carioca. (E deveria falar menos rápido também.)

Editor, coloca o refrão de Carioca Girls by Max Lewis pra tocar aí. Por que diabos esse garoto tem nome gringo? Ele diz na música que já foi pra Londres, talvez o pai seja inglês. Enfim, reflexões absolutamente inúteis.

Sigamos:

Um dos meus elementos em aquário é o ascendente. Então me regozijo com o fato de ser underground, indie, quase como uma banda de trash metal da Letônia que tem 17 ouvintes mensais no Spotify.

Umas semanas atrás, aconteceu uma coisa que me pegou de surpresa. Uma menina que eu não conheço ouviu o episódio anterior e comentou que se sentiu no telefone com uma amiga. Eu adorei ter lido isso porque esse era justamente meu objetivo quando publiquei aquela resenha informal um ano atrás: ser despojado, sem frufru, como uma ligação telefônica com alguém cujo papo flui sem esforço, sem peso. Ou um áudio de WhatsApp que você tá gravando e o seu dedo escorrega e você não consegue term-

Instagram: @caracolespodcast
Disponível em outras plataformas de streaming.

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Leitora e escrevedora de transporte público. https://linktr.ee/santosacarolina

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