Pentalogia de um béguin mal-sucedido

O prelúdio:

Se eu soubesse francês

Petites lèvres
Barba, riso
E as mais adoráveis
rugas ao redor dos olhos

Oh, Louis,
se eu soubesse francês
Te escreveria os mais belos poemas
Oui, oui

Moi et vous
E intermináveis saideiras
Na Lapa ou na Urca

497, 483
Let’s go back to your place
Oops, inglês

Mas, ah!, se eu soubesse francês
Colocaria em belas palavras
meus sentimentos pour vous

Petits yeux
Fixos, distraídos
Em meio aos nossos silêncios desconfortáveis,
Só penso em desnudar seu peito
Afagar seus pelos
E beijar sua petite boca

Petite mort
Pour vous, eu até abandonaria
minha racionalidade
E juntaria meu DNA ao seu
Oui, Louis
Eu não diria non a você

Moi et vous
E uma garçonnière na Zona Sul
Moi et vous
E um tour pela América do Sul

Mas, ah!, Louis
Há uma fille avec toi
Ainda assim, Louis
Eu não te diria non
Só diria oui

O após:

Anteontem

Anteontem saí tarde de casa
Pensei na possibilidade de nos encontrarmos no caminho
E de fato aconteceu

Todos os dias espero,
Torço para que você pegue o mesmo ônibus que eu
Mas nunca acontece
Anteontem aconteceu

Quando perto do seu ponto,
Sempre finjo afinco na minha leitura
Nunca levanto a cabeça
Nunca olho pra roleta
E de fato fui pega de surpresa
Quando parou e sentou ao meu lado

Fiquei feliz por estar usando meu gloss e perfume novos
Eu realmente estava me sentindo muito plena, sabe
Lendo meu livro
Você me surpreendeu no meu melhor momento

Claro que os silêncios constrangedores não poderiam deixar de acontecer
Mas até que não foi tão “awkward” assim
Gostei de perceber que você se esforçava pra quebrar nossos silêncios
Eu não fazia força nenhuma

Reparei que alguns fiapinhos da sua barba são ruivos
Tentei não transparecer nada
Mas não sei se fui bem-sucedida
Porque me derretia quando você me olhava nos olhos
Coisa que raramente faz

Assim como me derreti quando sorriu pra mim naquele sábado
Eu realmente estava me sentindo muito plena, sabe
Quando sorriu, vi que talvez nossa relação seria menos “awkward” a partir dali
Mesmo que você tenha fugido de mim mais cedo
(Aquilo foi bem childish)

Mas voltando a anteontem
Gostei de ver que você não fugia quando nossas pernas e braços se encostavam
Será que voltaremos a ser amigos um dia
E fingir que aquela madrugada de dezembro nunca aconteceu?
Mas de fato aconteceu
E não sai da minha cabeça

O natalício:

Lembrança/Presente

Que fazer
Se no meu dia eu só penso em você?
No que te daria no seu dia
Aquele poema bonitinho
Um livro sobre o Botafogo
Ou um disco do Cartola

Se fôssemos,
O que me daria neste dia?
Um livro, espero
[Um com o qual você tenha topado e tenha te lembrado de mim
“Vi e lembrei de você”
Quão doces são essas palavras?]

Ou apenas o seu estar ali
Isso seria o bastante
O aperto firme da sua mão na minha
Seus olhos pregados em mim
O andar vagaroso para se adequar ao meu

Iríamos a um museu
Depois ao cinema
E, nesse ínterim, mataríamos tempo numa livraria,
Onde você insistiria em me dar outro livro
Eu recusaria veementemente
Mas você, obstinado, não cederia
E eu receberia meu segundo presente
Aliás, terceiro

O pretérito:

Me pergunto onde você morou

Me pergunto onde você morou
Se em minhas andanças, distraída, já olhei pra sua janela
Um apartamento, dentre tantos
Estaria você lá?
No quarto
Com ela
Eu nem saberia, de qualquer maneira

No passado
Teríamos nos cruzado?
Eu o teria notado?
Você teria me notado?
Teria ela nos notado?

Um sábado à noite na Voluntários
Em, digamos, 2015
Você e ela, caminhando,
Abraçados, cúmplices
Eu passo, na direção oposta
Um vestido florido
Olhares trocados
Uma estranha apenas

E só
Dois estranhos numa rua de Botafogo
Como hoje quase o somos
Em uma rua da Lapa

O dissabor:

11 horas

Sozinha
Sentada
Te esperando
Será que vens?
Será? Será? Será?

Será que retornará à casa materna
Numa sexta-feira à noite?
Quão boba eu sou
Mas é claro que não
É inútil estar aqui a te esperar
O que estava pensando?
Burrice, burrice, burrice

Aqui
Nesta praça
A observar os ônibus que chegam e param no seu ponto
Você descerá de um deles?

Retornará você à casa materna
Numa sexta-feira à noite?
Quando poderia ir a tantos, tantos, tantos lugares

Seu ônibus passou e não parou
Criei esperanças à toa
Como de costume
Todo dia, todo o tempo
Todo. Santo. Dia.
E não é você

Lá vem outro ônibus
Estará você lá?
Eu te alcançarei?
Merda!
Não era você

Tá meio cedo, na verdade
10 pras 10
Você sai tarde
Mas ficarei aqui
Te esperando
Até depois das 10
Acho que 11 é meu limite
Ficarei aqui
Até as 11h

[…]

C’est fini.

Leitora e escrevedora de transporte público. Instagram: @santosacarolina

Love podcasts or audiobooks? Learn on the go with our new app.