Quando diabos você vai escrever de uma vez?

O escritor Lerone Bennett Jr.

Não tenho dislexia (pelo menos acho que não), mas às vezes leio coisas que não estão lá. Estava lendo um artigo no El País e um dos textos recomendados ao pé da página se intitulava “Quando diabos você vai escrever de uma vez?”, ilustrado por uma arte que retratava Holden Caulfield, protagonista do romance “O Apanhador no Campo de Centeio”, de J.D. Salinger. Logo inferi que o artigo tratava-se da arte da escrita. Qual foi minha surpresa quando, muitos minutos depois, caí em mim que o título na verdade dizia “Quando diabos você vai crescer de uma vez?”, não “escrever”. Mas eu li “escrever”. Li várias vezes. E em todas elas decodifiquei “escrever”.

Engraçado como a gente projeta nosso eu em tudo. Ando às voltas com a escrita. Quero escrever mais. Quero finalmente começar um romance (ou um conto — sejamos menos ambiciosos), mas nunca tenho a gana para isso. Tenho dezenas e dezenas de ideias, mas não a força de vontade. Vou criando desculpas a mim mesma ou dando importância demais aos obstáculos. Exemplo: eu tinha um notebook bom, mas uma cadeira desconfortável, então não escrevia. Então, meu PC quebrou e a cadeira desconfortável também quebrou, ou seja, aí que eu não ia escrever mesmo. Consertei o computador e agora tenho de novo uma boa máquina, porém ainda sento numa cadeira inapropriada.

Mas essas desculpas esdrúxulas não colam. O que eu mais tenho é caderno vazio. Toneladas e toneladas de papel estocado nos meus armários. Eles estão lá, esperando uma verve bukowskiana da minha parte para serem preenchidos. Acho que o problema é a pretensão. Por que nós, jovens de 20 e pouquinhos, já queremos começar com romances? Ninguém nasce pronto. Por que não contos? Por que não crônicas? Por que não poemas? E quem se importa se eles forem ruins?

Ninguém é Rimbaud. Ninguém é Álvares de Azevedo, que morreu antes de completar 21 anos e virou um clássico. É ilógica essa autopressão para ser genial em uma idade tão tenra. Enquanto não me sinto pronta para começar um romance, vou me abastecendo com o máximo de literatura que eu for capaz de consumir. E um dia, quem sabe, daqui a um ano, cinco ou dez, eu abra o Word e digite “capítulo 1”.

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Leitora e escrevedora de transporte público. (Instagram: @santosacarolina)

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Ana Carolina Santos

Ana Carolina Santos

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