Refrigerante de tamarindo e outros poemas

Acho muito esquisito
que não escreva poemas
sobre você há um ano
Acho ainda mais esquisito
que os dois anos no deserto
tenham acabado há três dias

Veja bem
Não é como se eu
não escrevesse
sobre você há um ano
Escrevi, sim
Um tanto
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Relatos de sonhos
Mas nunca em versos

Sonhos, não foram muitos
No mais recente,
você me perguntava
se eu queria uma bebida xis
que era cerveja com vodka

O que me lembrou de outro sonho
Esse, de dois anos atrás
Em que você me pegava no colo
numa estação de trem
da zona norte distante
(não a nossa zona norte)
me segurava
e me beijava
até o diretor gritar corta
Depois da filmagem,
você disse que ia na rua comprar
refrigerante de tamarindo

O que é isso
que o meu inconsciente
tem com você indo
comprar bebidas pra mim?
Será que é porque
nos conhecemos em uma
fatídica choppada?
Será que é porque
em nossos encontros furtivos
(on begged and borrowed time)
eu sempre levava latas de Brahma?
Será que é porque,
naquele último encontro,
eu tava tão desidratada
que te pedi pra comprar água pra mim?

(Começaram ali os dois anos no deserto)

Sei lá
Acho que isso não mais nos pertence
Há de se ter certa
elegância
especialidade
esperança
alguma coisa
pra que a Musa
se manifeste

Veja bem
Não é como se eu
não escrevesse poemas de amor
há um ano
Escrevi, sim
Um tanto
Para homens que nem conheci ao vivo,
veja só você
Até rimei,
veja só você

Lembra do começo,
quando eu não conseguia
escrever poemas sobre você?
Aí escrevi um poema
sobre não conseguir escrever
poemas sobre você

O primeiro
E, então,
vieram uns 100

E agora
novamente um poema
sobre não escrever mais
poemas sobre você
Achei bonito

ser a namoradinha dele
ir à casa dele de uma a três vezes por semana
cozinhar pra ele
desligar as luzes e eletroeletrônicos dos cômodos que não estão sendo usados porque ele sempre deixa tudo ligado
assistir ao BBB enquanto ele mexe no celular porque ele é comunista e despreza o BBB
ser recepcionada com Taylor Swift tocando na TV e latas de Stella no congelador
cápsulas de achocolatado porque eu não gosto de café
uma toalha que é a *minha*
minha escova de dentes na pia cor de berinjela, que combina com os azulejos cor de rosa do banheiro dele
a casa que não é minha, é dele, mas eu me sentiria em casa
e, eventualmente, ela seria minha também
daqui a um ano, um ano e meio
quando eu ganhar o suficiente pra ajudar nas contas
(aí eu ficaria ainda mais chata com as luzes, ventiladores e televisão ligados à toa)
nós sempre discutiríamos sobre qual lado da janela deve ficar aberto
esperaria com ânsia pela chegada dele do trabalho
e o atacaria ainda na porta com meu beijo forte
nosso beijo cheio de lábios cheios, pois somos pretos, graças a Deus

Alguém me escreveu um poema
Eu nunca havia sido uma musa
Gosto de ser uma musa

Alguém sentiu minha falta
e me escreveu um poema

Também senti sua falta
Mas não escrevi
Não escrevi para ele
Não escrevi sobre ele

Agora quero lhe escrever
Um poema
Um conto
Uma mensagem

Escrever-lhe
é tudo que posso fazer

Tenho medo dos meus desejos,
manifestações,
profecias

Então não direi que espero
vê-lo no inverno

Apenas direi que espero
inspirar-lhe poemas
em todas as línguas que fala

Até que nossas línguas
possam esbarrar-se, afinal

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Leitora e escrevedora de transporte público. https://linktr.ee/santosacarolina

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