Sendo Elena Greco

História de um ghosting (ou curving)

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Elena ou Lenu ou Lenuccia

Cinco de outubro, uma e cinquenta e seis da manhã: Eu não aguento ver o rosto dele. O álbum que fiz no fim do ano passado com suas nudes. Não aguento ver as fotos, legendas e comentários no Instagram. Escorre uma lágrima do meu olho direito neste momento. Não sabia que o amava assim. Ainda. Já. Não sei se posso, se devo me colocar nessa situação. Ele me procurando pelo que parece ser só sexo. Vou suportar isso? Ser procurada apenas por sexo enquanto nutro esse sentimento há quase um ano? Serei forte o suficiente para encontrá-lo, transar com ele e não sufocá-lo de amor, de atenção, e ser rejeitada mais uma vez? Vai ser o quê?, a terceira ou a quarta vez que ele me vai rejeitar. Vale a pena passar por isso por uma noite, duas, amando-o, tendo acesso a seu corpo, sua carne grossa de macho (ah, Lenu), seu peito peludo, sua barba, seus beijos profundos, como o primeiro? Vai ser bom pra mim? Vou sofrer pra tirá-lo da cabeça quando não me quiser mais? Ou estou sendo pessimista? Ele se arriscou pra falar comigo e eu o respondi com alguma frieza. Ele foi corajoso ao me abordar depois de todos esses meses. Será só carência de quarentena? Será a certeza de um sexo fácil? Gosto de pensar que ele é uma boa pessoa, tem caráter. Nunca me deu motivos pra que pensasse de outra forma. Enfim. Pensamentos.

Duas e quatro da manhã: Revendo suas nudes, reparo em seus dedos. Por que até seus dedos, suas unhas, são atraentes pra mim? Lá está ele, masturbando-se, aquele pau grande e duro na tela, e eu reparo em como seu polegar e sua unha são bonitos.

Três e seis da manhã: Fui pro XVideos e demorei a vida pra gozar porque ficava pensando nele aqui na minha cama. Na gente transando várias vezes na mesma noite, até ficarmos exaustos.

Três e dezenove: Será que quando/ eu fico acordado/ pensando nela, ela pensa um pouco em mim? Um pouco em mim

Seis de outubro, meia-noite e quarenta e oito: Quero ter mais memórias com você pra alimentar o pensamento. Quero ter mais memória do seu beijo, do seu toque, das suas mãos. Quero estar dolorosamente sóbria, quero me concentrar pra guardar cada detalhe de você.

Duas e quarenta da manhã: Descobri que quero um Nino Sarratore, mas ele não pode ser um Nino Sarratore porque ele não me parece muito dado às filosofias e às reflexões e aos questionamentos da realidade.

Duas e quarenta e seis: Bom, o Nino é um merda, então foda-se.

Duas e cinquenta: E tudo o que fica é o vazio.

Três e vinte e quatro: Matando projeções. Assassinando expectativas. Aniquilando a esperança.

Três e vinte e cinco: O Nino era um chaaato

Três e vinte e oito: Incrível como dessa vez o poder está se alternando entre nós. Agora estou por baixo, mas já estive por cima. Quero aquela cerveja que tá na geladeira.

Três e quarenta e nove: Ele nem é isso tudo. Almas gêmeas não existem.

Quatro e doze: Como escreveu a poeta sueca Ebba Nilsson:

I’m a cool girl
I’m a
I’m a cool girl
Ice cold
I roll my eyes at you, boy

Quatro e quarenta: Aquelas reações físicas que tive quando mandei feliz aniversário pra ele, estou tendo-as novamente, de outra sorte. Meus braços formigam, meus pelos se arrepiam, sinto o corpo dele próximo, como se ele tivesse aqui na minha cama, me tocando. Sinto sua boca em minha nuca, seu sexo em meu sexo. A excitação sexual ao conversar com ele no WhatsApp, que há muito não sentia. Trocar sacanagens, fazer promessas. Rever suas nudes, sentir os mesmos formigamentos de antes. Ter esperança novamente. (Mas checando de tempos em tempos se ainda dá pé, para citar outra Ana poeta.)

Dezesseis de outubro, meia-noite e cinquenta e sete: I want to wear his initial on a chain round my neck, chain round my neck. [MF stands for motherfucker]

Dezessete de outubro, oito e treze da noite: Estou fazendo algo potencialmente errático.

Certamente errático

Dezoito de outubro, meia-noite e quarenta e oito: Foi gostoso? Foi. Ele gozou umas cinco vezes? Sim. Isso é garantia de que a gente vai se ver de novo? Não, porque ele é imprevisível.

Vinte e um de outubro, sete e cinquenta e oito da manhã: caralho, que saudade do seu cheiro. de como o seu cheiro ficou no meu corpo mesmo depois de eu ter tomado banho. saudade do peso do seu corpo sobre o meu, de quando você falava sacanagem no meu ouvido, dos nossos beijos cheios de línguas nos intervalos. dos carinhos que eu fazia no seu cabelo, na sua orelha, no seu rosto, na sua clavícula, no seu peito, no seu ílio. Quero beijar e lamber o seu corpo todo, quero sugar o seu suor. Nada que vem de você me dá repulsa. Eu só queria que você se sentisse assim em relação a mim.

Vinte e dois de outubro, onze e cinquenta e dois da manhã: Sonhei que eu e você estávamos num hotel de luxo, aí eu conheci um bilionário árabe e te larguei pra virar a trophy wife dele.

Vinte e seis de outubro, dez e dezoito da manhã: Foda-se foda-se deixa ele me ignorar não vou mais chamar ele no WhatsApp não vou mais chamar ele pra sair não vou mais fazer porra nenhuma caralho que ódio

Vinte e seis de outubro, onze e cinquenta e quatro da manhã: Foda-se eu mereço um homem

Vinte e sete de outubro, duas e cinco da manhã: My baby lives in shades of green

Vinte e nove de outubro, quatro e cinquenta e sete da manhã: Se ele não me quiser, não vai ser o fim do mundo. Vai ser o começo do mundo

Vinte e nove de outubro, cinco e sete da manhã: Eu só queria me esfregar no seu corpo. Woosh. Woosh

Vinte e nove de outubro, onze e cinquenta da manhã: Dança é uma metáfora muito óbvia pra sexo. “Dancing with our hands tied”

Trinta de outubro, onze e vinte e sete da manhã: Sentindo uma dor fina no baixo ventre

Trinta de outubro, sete e cinquenta e sete da noite: “I’d hold you as the water rushes in [seria Taylor Swift fã de Titanic?], if I could dance with you again. Dancing with our hands tied, hands tied”

Trinta de outubro, oito e sete da noite: Em um dos intervalos da nossa foda, eu falei alguma coisa que não me lembro e ele falou pra eu não fazer essa vozinha, mas eu não tava fazendo vozinha nenhuma. Ele só achou sexy o jeito que eu falei

Quatro de novembro, cinco e vinte e cinco da tarde:
Psicanálise: 70 reais
Psiquiatra: 180 reais
Remédios: mais de 200 reais
Búzios e baralho cigano: 100 reais
Ser ignorada pelo boy: sim, tem preço.

Sete de novembro, dezoito e dezoito: Maçã grande e vermelha. Espetar 14 cravos e fazer pedidos pra mim mesma. Botar em cima de um prato e deixar perto da minha cama.

Sete de novembro, sete e meia da noite: “Nem sempre o que a gente quer é o que a gente precisa.”

Oito e trinta e três da noite: Parar de me relacionar com caras de quem eu não gosto só pra aplacar a minha carência e a falta que ele me faz

Oito de novembro, meia-noite e vinte e oito: Perca o seu amor em três dias. Você é a antiamarração amorosa. Você é o antichá de boceta.

Seis e vinte e dois da manhã: Saudade da sensação do seu pau dentro de mim

Dez de novembro, meia-noite e cinquenta e seis: Acender uma vela de sete dias pro meu anjo da guarda

Quatro e vinte e oito da tarde: Puta merda. Eu chuparia os dedos do pé dele. Com gosto

Onze de novembro, duas e onze da manhã: Ai, caralho, eu tô muito apaixonada

Doze de novembro, dez e cinquenta e um da manhã:
Gosto mais das ruas do meu bairro
Agora que você caminhou por elas

Dez e cinquenta e oito da manhã:

Se soubesses como gosto das tuas cheganças, tu chegarias correndo todos os dias

Treze de novembro, uma e oito da manhã: Aquela coisa esquisita que aconteceu hoje mais cedo. Meu copinho de pedras caiu, e eu perdi de vista a pedra grande de Oxóssi. Procurei por todo o quarto. No fim, ela tava dentro do anel de Exu Caveira, dentro do copo com marcadores de livro. Não sei, senti uma coisa esquisita. Como um aviso de que algo vai dar errado. Ou um aviso de que é pra eu deixar de ter esperanças de ficar com ele.

Treze de novembro, duas e quarenta da manhã: E vamos de aceitar ter apenas sexo com ele na vã esperança de que ele se apaixone por mim *emoji de palhaça, emoji de palhaça, emoji de palhaça*

Duas e quarenta e um da manhã: Eu sou um clichê

Catorze de novembro, seis e quarenta e quatro da noite:
Domingo, às três: Date com M.F.
Domingo, às sete: Culto na Catedral.
Segunda, às seis e meia: Psicanálise.
Quinta, às seis: Búzios.

Seis e cinquenta e dois da noite: Psicanálise: Eu me odeio? Eu inconscientemente quero sofrer e por isso me relaciono com ele?

Quinze de novembro, meia-noite e quarenta e oito: goddamn, manchild/ you fucked me so good that i almost said i love you/ ur fun and ur wild/ but u dont know the half of the shit that you put me thru

Dezessete de novembro, meio-dia e vinte e sete: “Orgasmo é uma pequena morte. Ele morreu cinco vezes. E você não quer morrer.”

Dezoito de novembro, meia-noite e cinquenta e oito: Por que eu só conheço virginianos desde que o conheci? E por que os paus dos outros caras com quem eu transo têm sempre uma característica igual à dele?

Vinte de novembro, onze e trinta e três da manhã: Se vens, por exemplo, às 20h, desde as 11h estarei feliz *emoji de carinha com corações ao redor*

Vinte de novembro, meio-dia e trinta e sete: Leio sua mensagem (“E quero sentir você gozando no meu pau”) e minhas pernas ficam bambas, meus pelos se eriçam e meu coração pula. Exclamo: “Ai, meu Deus, quero morrer.” Quero finalmente morrer. Quero ter aquela pequena morte de Lacan.

Vinte de novembro, meio-dia e trinta e sete: Como que com só algumas palavras pelo WhatsApp ele me deixa assim? Tão pronta, tão no ponto. Como se ele estivesse aqui, falando essas sacanagens no meu ouvido.

Vinte de novembro, cinco e trinta e um da tarde: Choro e rio ao mesmo tempo. Nunca senti tanta felicidade.

Vinte de novembro, oito e vinte e dois da noite: Tudo bem. Eu obtive tanto prazer só pelo empenho dele em vir que já valeu o dia. A perspectiva de vê-lo, a esperança, já me alimenta o suficiente.

Vinte e quatro de novembro, três e vinte e dois da tarde: Homem é tudo inseguro, eu amo isso

Vinte e sete de novembro, uma e dezoito da manhã: Ele saiu do WhatsApp assim que eu mandei mensagem

Vinte e sete de novembro, uma e trinta e cinco da manhã: Por que ver o aviso “digitando…” me faz sorrir, me faz feliz? Algo tão corriqueiro. Mas significa que ele tá respondendo rápido

Vinte e nove de novembro, onze e onze da manhã: Ai, que saco. Por favor, me queira

Sete de dezembro, sete e dois da manhã: Sonhei que ele fazia uma transmissão ao vivo, esquecia de desligar a câmera e aparecia se masturbando numa live no Instagram. Ah, antes disso, ele e eu faríamos um ménage a trois com uma amiga minha. Só que eu tava super desconfortável com a ideia. Meio que só topei pela oportunidade de transar com ele novamente.

Oito de dezembro, onze e cinquenta e três da manhã: Hoje eu não sonhei com ele, mas ele tava no sonho. Sonhei com uma festa da faculdade, que acontecia em um mercado enorme. Parecia o Extra do Carioca Shopping. Eu queria comprar uma caneca da choppada. Primeiro comprei aquele modelo antigo, prata. Depois vi que havia pra vender aquele modelo laranja, que é o mesmo que ele tem. Aí eu comprei esse laranja justamente por isso. Eu pensei nele no sonho. Quase como um daqueles sonhos lúcidos. Aí depois eu cantei e dancei a música “I’m With You”, da Avril Lavigne, com uns amigos meus. Torcendo pra que ele tivesse vendo minha performance.

Oito de dezembro, onze e cinquenta e cinco: Acabei de lembrar que meses atrás sonhei que chegava a uma festa da faculdade e o via beijando uma menina. Fiquei triste, mas fingi desprezo e fui ficar com outros caras. Acho que em algum momento da festa a gente se encontrava e ensaiava uma ficada. Mas não tenho certeza. Isso tem muito tempo.

Nove de dezembro, seis e vinte e quatro da manhã: Sonhei que me consultava com ciganas e oráculos. Minha avó tava no sonho tbm. Claro que eu perguntava dele. Elas disseram pra eu relaxar, parar de ser ansiosa. E meio que deram a entender que eu tô dando mais importância pra isso do que deveria. Uma cigana disse que eu preciso ler a Bíblia. No final do sonho, minha vó falou que uma vovó disse pra ela que eu preciso me consultar com um preto velho. Ai, ai, esse garoto fode com a minha psiquê.

Nove de dezembro, três e quatro da tarde: Cochilei no final da manhã e sonhei com ele. A gente tava numa estação de trem que eu não conheço. Parecia ser lá pra Zona Norte mais distante, tipo Honório Gurgel. Estávamos gravando um filme. Interpretávamos um casal apaixonado. Tudo o que precisávamos fazer era nos beijar. Estávamos sentados em um banco na estação, e a câmera estava dentro do trem, que se aproximava. Teve uma hora em que nos beijávamos em pé e ele me pegou no colo e caminhou em direção à escadaria. Enquanto ele andava, eu sentia que ele ia desabando por causa do meu peso, mas ele me segurou até o “corta” do diretor. Fiquei morrendo de pena e de ternura por ele. Aí no final do sonho, nós estávamos sentados e ele disse que iria na rua comprar “refrigerante de tamarindo”. Eu acho que refrigerante de tamarindo não existe na vida real. Eu amei esse sonho. Obrigada, psiquê

Onze de dezembro, uma e meia da manhã: Caralho. Caralho. Não fica triste. Não despedace seu coração. Não dê mais importância pra isso do que isso merece

Uma e cinquenta e sete da manhã: Obrigada, ciganas. Vocês me avisaram

Duas e vinte e um da manhã: Nem chorei. Só fiquei tremendo

Duas e quarenta da manhã: Não vou ficar deprimida agaaaain/ It’s only smooth, smooth sailing from now on woah-oah

Sete e dezoito da manhã: Eu previ isso. Tá tudo registrado aqui.

Oito e meia da manhã: Já que você foi dolorosamente honesto comigo, eu vou ser dolorosamente honesta também: eu não gozei nenhuma vez com você.

Leitora e escrevedora de transporte público. Instagram: @santosacarolina

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