Terça-feira gorda e outros poemas

Publicava meus poemas nesta página desde 2017. Mas lá por 2019 a depressão me jogou no chão e fiquei um bom tempo sem escrever nada. A musa voltou a me visitar em 2020 e meio que veio pra ficar. Tenho publicados poemas em outro Medium, sob um pseudônimo, pelo simples fato de a maioria ser poesia erótica, e eu não querer aliar meu nome — o nome que uso pra assinar matérias jornalísticas — a poemas eróticos. Bobagem? Talvez. Mas sei lá. Abaixo estão alguns poemas que selecionei da safra de 2020. Sinto que minha poesia mudou de 2017 pra cá. Na minha cabeça, há dois livros. Espero publicá-los em algum momento.

Não consigo mais escrever
Tua imagem não sai da minha cabeça
Eu até escrevia uns poemas decentes
Agora só consigo pôr pra fora
meia dúzia de palavras vazias sobre você

De você, só quero falar falar falar
Tu não me inspiras as palavras escritas
Mas as faladas
Uma sessão por semana no psicanalista
70 reais
Incontáveis conversas com amigos e semiamigos

Só abro a boca pra falar de você
Essa ação mecânica, básica
Incontrolável
Pensar e falar de você
Das nossas coincidências
Em como você me mandou uma mensagem
justamente no meu pior momento

Essa pretensa ligação
Coisa de almas
Coisa da minha cabeça
Eu inventei você?
Se sim,
tenho orgulho da minha criação

Te abraçar por trás
Sentir seus músculos
Elogiar seu corpo
Beijá-lo por inteiro
Reverenciá-lo
Como os gregos faziam

Eu não quero ser uma deusa
Eu não quero ser uma musa
Quero ser tão humana
a ponto de idolatrar o humano que é você
Sua carne, seu sexo
Tudo que há de mais sacro e herético

Quero te admirar
Pintar quadros em sua homenagem
Escrever odes a cada detalhe seu
Como os franceses faziam há cem anos

Worship you
Só o inglês consegue denotar o que quero
Você vai ser meu deus do sexo
Meu amor de perdição
Meu compilado de pecados
E deles eu não vou me arrepender
(É indecente o remorso)

Entre em mim
Como se estivesse vasculhando
um segredo universal
Como se embrenhasse em mata fechada
para encontrar o fruto
que contém a cura
do mal do século
Entre em mim
Sem medo da queimadura das urtigas
Lembre-se:
você carrega o arco de Oxóssi às costas
Está protegido
A caça corre em suas veias
Perdura em sua alma
Mas afrochegue-se
A busca acabou
É tempo de permanecer

A dança
Nossos passos,
tão bem executados,
parecem exaustivamente ensaiados

Dançamos com nossas mãos
entrelaçadas
Você me conduz
Eu te sigo

O vai-e-vem extasia
Seus movimentos
carregam a sapiência
de muitas vidas

Você conhece minhas vontades
Instintivamente
Minha coreografia favorita
Nos comunicamos pelo olhar

Meu bailarino mais desejado
Só quero dançar com você

Gosto mais das ruas do meu bairro
Agora que você caminhou por elas

Quero que você voe
Voe muito, voe alto
Faça um rasante
nalgum rio amazônico

Quero que tu sejas libre como o vento
Quero que vás e volte
Quero que escolha ficar
Porque és livre

E nessa liberdade
Seu ficar é mais bonito

Pandemia
Mas é verão
Mas estamos em uma pandemia
Mas o sol tá brilhando depois de vários dias de chuva
Mas as pessoas estão morrendo!!!
M-mas… o dia tá lindo, e o Fluminense tá ganhando
As. Pessoas. Estão. Morrendo. E o governo é essa desgraça
Mas as pessoas que estão vivas merecem um consolo, não? Merecem ter alguma esperança. Algo a almejar. O verão tá virando a esquina. E ainda existem praias desertas. E o Nense tá ganhando

Leitora e escrevedora de transporte público. Instagram: @santosacarolina

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