Uma coisa para aceitar quando você tem um transtorno mental:

Você está completa e irrevogavelmente sozinha. O seu melhor amigo não vai te entender, a sua mãe não vai te entender, o seu namorado não vai te entender, a sua chefe não vai te entender. Só você vai saber o que se passa dentro de você. Você pode tentar comunicar isso aos outros de alguma forma. Você pode escrever. Você pode gravar áudios longos. Mas é possível que, mesmo com muita boa vontade, eles não entendam. Ou pior: pode ser que, com muita má vontade, eles nem sequer tentem entender. Vão achar que é corpo mole. Preguiça. Incapacidade. Desleixo. Irresponsabilidade. Desdém. Mas não é. Porque você tá pensando o tempo todo naquela coisa que você tem que fazer. Só não consegue fazê-la. Pode ser uma louça suja de domingo. Um banho pela manhã. Uma ida ao bar. Uma monografia. Uma tarefa simples que você costumava executar com destreza e até facilidade. Você é boa naquilo, você sabe que é. Mas alguma coisa lá no fundo te convenceu de que não. De que não é capaz. De que vai falhar. E se inevitavelmente você vai falhar, pra que tentar pra começo de conversa? Então você só… Desiste. Nem tenta. Enrola. Posterga. Protela. Procrastina. (Todos sinônimos que eu adoro). Deixa pra depois. Pro dia seguinte. Pra semana seguinte. Pro semestre seguinte. Como romper com esse sistema de autossabotagem? Eu não sei. Te garanto que ter consciência dele não adianta de nada. Talvez seja um passo primeiro. Tentar diferentes terapias? Pode ser. Tô tentando também. Psicanálise lacaniana, psicanálise freudiana pura, terapia cognitivo-comportamental, junguiana, Gestalt-terapia. Diferentes psiquiatras? Diferentes remédios? Conversar com semidesconhecidos na internet que te diagnosticam sem nem ao menos ter um diploma que os chancele? Check, check, check. Olha, o que funciona pra mim- funciona não é a palavra certa. O que me ajuda a lidar com os meus transtornos é… cultivar o otimismo. O olhar para a vida com olhos generosos. Vislumbrar mudanças positivas. Enxergar as possibilidades da vida. Penso nos lugares em que vou morar. Nas profissões que vou desempenhar (ser uma coisa só o resto da vida? Pfff, aqui não, queridinha). Nas pessoas que ainda vou conhecer. Nesse exato momento tem uma pessoa existindo no mundo, uma pessoa que nem faz ideia de que eu existo, mas que lá na frente vai se tornar muito, muito importante pra mim. Talvez ela esteja escrevendo um texto muito pessoal no Google Keep. Talvez ela esteja ouvindo o recém-lançado álbum da Lorde, “Solar Power”. Talvez ela esteja dormindo o sono dos justos. Ela não sabe que nossos caminhos vão se cruzar em algum momento e que esse encontro vai ser importante pra ambas de nós. Ela não sabe que ela vai ser mãe/pai da minha filha/o. Ela não sabe que vai ser minha melhor amiga/o. Eu também não sei nada disso. Pode ser que isso nem role. Pode ser que eu nem seja mãe e fique satisfeita sendo a tia do Arthur, do Noah e dos futuros filhos que meus irmãos e primas/os terão. Eu. Não. Sei. E esse não saber me excita. Eu quero viver. Eu quero ver.

Solar Power

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