Uma história deveras carioca

O dia em que assaltamos o assaltante que nos assaltou

Estávamos Matheus, Wellerson e eu no Baile Charme de Madureira. Nos divertindo? Não! Fazendo um VT para a aula de telejornalismo. Deu umas 2h da manhã, resolvemos ir embora. Matheus e eu rumamos para o BRT. Descemos em Vicente de Carvalho e, muito ingenuamente, fomos esperar um Uber na rua. Papo vem, papo vai, quatro minutos pro Uber chegar. Passa um menino de bicicleta, com a blusa branca do Fluminense.
— Acho que ele vai assaltar a gente — diz Matheus.
Eu, muito corporativista:
— Ah, vai assaltar, não. Ele é tricolor.
Daí o garoto dá meia volta e nos aborda. Levemente alcoolizada, demorou cerca de um minuto para eu entender que aquilo era um assalto. O menino começa a mexer na cintura. Deu pra ver que ele não tinha arma coisíssima nenhuma, mas se tem duas coisas que meu pai me ensinou, essas são: se joga no chão quando estiver dando tiro e não reage a assalto em hipótese alguma. Me resignei e dei o celular.
— Moço, a gente é pobre — apelou Matheus, mas faltou a famosa consciência de classe ao nosso assaltante.
Já que o Uber tinha ido para o espaço, fizemos sinal para um táxi na rua. Perguntei se aceitava débito (eu e essa minha mania de andar sempre com um total de zero reais em dinheiro vivo), e o taxista respondeu que a maquininha dele havia sido roubada. Cariocas unidos na merda...
— A gente acabou de ser roubado! — dissemos em uníssono.
O taxista ficou compadecido e resolveu nos levar. Ele perguntou para onde tinha ido o assaltante e entrou numa de querer caçá-lo pelas ruas. Eu disse que não precisava, porque o celular tinha seguro etc.
No caminho, eu só ficava pensando que a minha mãe ia me matar. Nem lamentei muito o celular, pois aprendi a lição da vez em que fui furtada e fiz backup de tudo, além de ter enfiado o seguro no meio das dez suaves prestações nas Casas Bahia.
O taxista desistiu da caçada e retomou o caminho até minha casa. Na Av. Meriti, depois do Bicão, ele fez a pergunta viladapenhense de ouro: "por baixo ou por cima?" Explico: pegar a Estrada do Quitungo ou seguir pela Meriti. Alguma coisa me disse para escolher a segunda opção. Deus? Universo? Roteiro do Show de Truman? Não sei, só sei que quem apareceu no caminho?????? Ele mesmo, nosso assaltante tricolor.
O taxista, sagaz, jogou o carro pra cima dele e o mandou devolver meu celular.
— Que celular? — perguntou, se fazendo de desentendido.
Daí eu, muito cinematograficamente, disse:
— O MEU celular!
PAM, PAM!
Sério, tocou uma trilha sonora na minha cabeça.
Ele devolveu aparelho, lhe agradeci imensamente e prometi que lhe daria uma bela recompensa — isso no calor do momento, porque ainda é dia 15 e eu preciso sobreviver ao resto do mês. Depois dessa aventura toda, não espero nada menos do que um 10,0 em telejornalismo. #PAS

Update: Tirei 9,2. Dá pro gasto.

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Leitora e escrevedora de transporte público. https://linktr.ee/santosacarolina

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